Dinheiro suado: atolados em dívidas e com renda menor, aposentados voltam ao mercado de trabalho

Endividados, alvos constantes de golpes e com a renda achatada e comprometida, os idosos mineiros têm permanecido no mercado de trabalho para tentar melhorar os ganhos e, consequentemente, a qualidade de vida. Muitas vezes, sem sucesso. Entre 2012 e 2018, houve aumento de 37,22% na quantidade de pessoas com mais de 60 anos na ativa, elevação de 230 mil pessoas, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Mesmo com o esforço, a conta não fecha. “Mais da metade da minha renda é para pagar dívidas”, lamenta Célia Sotério, de 74 anos, que, aposentada, trabalha em uma fábrica de embalagens e ainda costura para fora.

Célia levanta cedo para ganhar um pouco a mais. Às 4h30 ela acorda e, logo depois, inicia as costuras das clientes que conquistou durante a vida. Das 9h às 18h, a aposentada trabalha na fábrica de embalagens e, quando volta para a casa, liga a máquina e retoma as costuras.

Ela integra uma grande parte da população que possui empréstimos consignados.Conforme dados do INSS, dos 3,2 milhões de benefícios concedidos em Minas Gerais (aposentadorias e pensões), 2,4 milhões estão atrelados a 36 milhões de empréstimos. Isso significa que 75% das pensões e aposentadorias concedidas estão comprometidas e que cada um desses benefícios está ligado a 14,6 liberações de crédito. 

Juntos, esses empréstimos somam R$ 2,9 bilhões, o que dá uma média de R$ 30 mil por benefício. Os números são alarmantes e expõem a fragilidade dos idosos, que configuram a maior parte dos beneficiários. 

Célia possui vários empréstimos, entre consignados e de balcão, e não consegue sequer mensurá-los. Sabe, apenas, que não foi informada da maioria deles. “Eu não fiz esses empréstimos, não os contratei”, garante.

Segundo Resolução Normativa 28/2008 do INSS, os empréstimos consignados podem representar 35% da renda. O problema, conforme a presidente do Instituto Defesa Coletiva, Lillian Salgado, é que o assédio aos idosos por parte das instituições financeiras é enorme e, por isso, muitos acabam cedendo às “vantagens” oferecidas. 

“O assédio é tão grande que tem aposentado que fica sabendo da liberação da aposentadoria pelo telemarketing das instituições financeiras. E esse tipo de abordagem é proibida. Contrato de consignado não pode ser firmado por telefone”, alerta a representante da entidade.

Lillian destaca que as instituições financeiras cometem uma série de práticas abusivas, conforme mostra o curta-metragem “Covardia Capital”, que venceu a categoria Júri Popular do Festival Internacional de Trancoso e integra o Projeto de Crédito Consciente para Idosos, do Instituto Defesa Coletiva. 
Ela afirma, ainda, que é comum os idosos não conseguirem pagar os consignados e, por isso, eles refinanciam a dívida. No fim, é formada uma bola de neve sem prazo para terminar. 
Sem contar que, dos 35% que podem ser comprometidos com o desconto em folha, 5% podem ser concedidos por meio de um cartão de crédito consignado.

As instituições financeiras costumam liberar limites altos para estes cartões. Da dívida total, 5% pode ser cobrado na folha de pagamento e o restante deve ser pago por fora. 

O pesquisador do Ibre FGV, Daniel Vasconcellos Archeduque ressalta que a situação econômica dos idosos pode ser classificada como dramática. Por isso, é comum que eles aceitem esse tipo de oferta. 

“As aposentadorias são atreladas ao salário mínimo, que está praticamente estagnado desde 2014. Ou seja, o poder de compra deles não mudou”, diz. Por outro lado, a inflação da terceira idade (IPC-3i) subiu 4,75% em 2018, índice superior aos 4,32% registrados pelo Índice de Preços ao Consumidor do Brasil (IPC-BR).

Endividamento de idosos acaba virando bola de neve

Mais de 30% das pessoas com idade de 65 a 84 anos está endividada, conforme aponta pesquisa do SPC Brasil, o equivalente a uma população de 5,6 milhões de pessoas. Um dos motivos é a renda baixa. Segundo dados do INSS, o ganho médio do aposentado em Minas Gerais é de R$ 1.464,87. O montante é inferior a 1,5 salário, que está em R$ 998.

“Faço a compra do mês parcelada. Termina a compra, mas ainda não terminei de pagar. Aí, tenho dificuldades para fazer a compra do mês seguinte”, lamenta a aposentada Maria Zenaide de Menezes, de 63 anos. Ela perdeu o marido há três meses e ele pagava a maioria das contas. Agora, além do sofrimento emocional, ela luta para driblar a falta de dinheiro. 

“Aposentar no Brasil é muito difícil. E continuar trabalhando também. Tenho curso superior, trabalhei como supervisora, mas ninguém quer contratar uma pessoa com 63 anos porque nós temos as nossas limitações. As escolas querem professores novos, supervisores novos”, diz.

O motorista aposentado Mauro Fernandes Nogueira, de 73 anos, concorda. “Somente em remédios eu gasto mais de R$ 500 por mês. A aposentadoria não dá. Agora, estou procurando emprego, mas está difícil”, lamenta. 

Além das más condições econômicas vivenciadas pelo idoso, um conjunto de situações sociais faz com que os aposentados aceitem fazer mais empréstimos do que eles poderiam. 

Uma dessas situações é a necessidade de ser aceito pelos parentes. “O idoso sente que se ele não der o dinheiro, ele perderá o amor da família. É uma espécie de compensação. O idoso encontra no empréstimo uma forma de resgate do afeto familiar”, afirma o coordenador do Procon Assembleia, Marcelo Barbosa.
Diariamente, o órgão recebe pelo menos dois aposentados que possuem muitos empréstimos e se sentem lesados pelas instituições financeiras. 

“As pessoas vêm aqui pedindo para que nós as ajudemos a negociar o pagamento. É muito triste”, comenta Barbosa.

Fonte: Tatiana Moraes/Hoje em Dia

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